VISATGÉ

MENOS BORING MAIS BOSSA

De Mallorca, com escala em Nice · sua consultoria de imagem semanal

Oi, Brasil!

Esta edição está sendo escrita de Mallorca, mas ela nasceu em Nice.

Na semana passada eu subi até Cimiez, a parte alta da cidade, pra ver o Museu Matisse. E entrei numa exposição que eu não esperava encontrar: Henri Matisse e Yves Saint Laurent dividindo as mesmas salas.

Eu achei muito, muito legal a união dos dois universos. E saí de lá com uma ideia na cabeça que eu preciso te contar, porque ela tem menos a ver com museu e mais a ver com o seu armário.

NA EDIÇÃO DE HOJE:

  • A exposição: dois gênios que nunca se conheceram
  • Por que a cor nunca foi enfeite (nem na tela, nem em você)
  • A forma que acompanha o corpo
  • A cartela do ateliê do Saint Laurent, e o exercício que ela virou
  • A marca que os dois deixaram (e o que isso pede de você)

1 · O MUSEU VERMELHO DE CIMIEZ

Fachada do Museu Matisse em Nice: uma villa genovesa vermelha com detalhes ocre e janelas de veneziana verde-claro, com uma bandeira azul vertical escrita Musée Matisse

A villa vermelha em Cimiez. Matisse viveu os últimos anos dele a poucos metros daqui.

A exposição se chama "Henri Matisse, Yves Saint Laurent: o belo, a moda e a felicidade". São 160 peças entre pinturas, desenhos, tecidos, croquis, acessórios e alta-costura, numa parceria do Museu Matisse com o Museu Yves Saint Laurent de Paris. Fica em cartaz até 28 de setembro.

E tem um detalhe que muda tudo: os dois nunca se conheceram. Matisse morreu em Nice, em 1954, quando Saint Laurent tinha 18 anos e ainda nem tinha chegado a Paris. A conversa entre eles acontece numa via só, do pintor pro costureiro, e mesmo assim é a coisa mais afinada que eu vi nos últimos tempos.

2 · O QUE OS DOIS TINHAM EM COMUM

Os dois enalteciam exatamente as mesmas coisas: cores vivas, formas orgânicas e muita autenticidade. Cada um no seu ofício, um na tela e o outro no tecido. E cada um deixou uma marca no mundo que continua inspirando gente como eu, décadas depois.

Débora de costas, olhando para a câmera por cima do ombro, com lenço de crochê na cabeça e top branco, diante de um conjunto Yves Saint Laurent vermelho estampado com um chapéu redondo de palha rosa Vestido de festa Yves Saint Laurent em blocos de rosa, verde, amarelo e roxo, com mangas bufantes e saia longa e rodada, exposto em manequim

O conjunto que me parou na sala, e um vestido que é praticamente uma paleta em pé.

E tem uma coincidência entre os dois que eu adoro: cada um teve uma cidade que ensinou cor pra ele.

Matisse era do norte da França, de céu fechado. Depois de escolher morar em Nice, ele escreveu: "quando eu entendi que cada manhã eu reveria essa luz, eu não conseguia acreditar na minha felicidade".

Saint Laurent falou a mesma coisa sobre Marrakech: "essa cidade me ensinou a cor".

Ninguém nasce sabendo a sua cor. Alguém, ou algum lugar, mostra ela pra você.

3 · A COR NUNCA FOI ENFEITE

Pintura de Matisse: retrato de uma mulher de cabelo escuro preso, com vestido preto de gola quadrada e detalhes cinza, sobre fundo verde intenso Pintura de Matisse: mulher sentada de vestido longo branco esvoaçante, sobre um chão vermelho vibrante, com parede verde-oliva estampada de cruzes escuras ao fundo

Duas telas, duas roupas. E em nenhuma das duas a roupa é detalhe.

Olha o quadro da esquerda. O vestido preto com os detalhes claros pesa tanto quanto o rosto, e é o verde atrás que decide quem ganha a atenção. No da direita, o vestido branco toma quase a tela inteira, e é o chão vermelho que faz ele existir.

A curadoria da exposição resume isso numa frase que eu anotei no celular: para os dois, costurar e pintar eram o mesmo experimento com a linha, e o tecido nunca foi um simples acessório.

É exatamente esse o trabalho que eu faço no visagismo, que é a base de todos os meus serviços. A cor organiza a imagem antes de qualquer detalhe. Ela decide o que a pessoa vê primeiro quando olha pra você: o seu rosto, ou a sua blusa.

4 · A FORMA QUE ACOMPANHA O CORPO

Duas saias longas Yves Saint Laurent com corpete preto: a da frente em retalhos coloridos de cetim e veludo com faixa rosa na cintura, e a de trás em preto com folhas e formas orgânicas coloridas aplicadas, no estilo dos recortes de Matisse

O encontro literal dos dois: o recorte de Matisse aplicado em cetim, na saia.

Essa saia da direita é a hora em que a conversa fica explícita. Depois de uma cirurgia que o deixou sem conseguir pintar de pé, Matisse passou os últimos anos cortando papel pintado com tesoura e montando formas na parede do quarto. Saint Laurent pegou aquele vocabulário de recorte e aplicou em cetim colorido sobre a seda preta.

E ele foi mais longe. A Blusa Romena, que Matisse pintou em 1940, voltou quase literal numa coleção de inverno do Saint Laurent, em 1981, bordada de paetê.

Saia longa Yves Saint Laurent em moiré claro coberta de formas orgânicas coloridas aplicadas em cetim, com bustiê roxo e faixa amarela na cintura Dois croquis de Yves Saint Laurent emoldurados: um vestido de gola de folhos pintado em azul-turquesa e, ao lado, o mesmo tipo de vestido desenhado apenas com traço preto, sem cor

À direita: o mesmo vestido, com cor e sem cor. O traço já resolve o volume.

Repara no croqui sem cor. Uma linha só, nenhum pigmento, e você já sabe onde o volume vai ficar e o que aquela roupa vai fazer com o corpo de quem veste. A forma vem antes, e a curadoria descreve as peças do Saint Laurent como roupas que se desdobram no espaço, feitas pra existir em movimento.

No visagismo é a mesma ordem de leitura: primeiro as linhas (as do seu rosto, as do seu corpo), depois a cor que vai vestir aquelas linhas. Quando a ordem se inverte, a roupa fica bonita no cabide e estranha em você.

5 · A CARTELA DO SAINT LAURENT, FEITA À MÃO

Oito fichas de papel do ateliê de Yves Saint Laurent, cada uma com dezenas de amostras de tecido presas por alfinete e organizadas por família de cor: amarelos, rosas, neutros, laranjas, vermelhos, verdes, azuis e roxos

As fichas de amostra do ateliê do Yves Saint Laurent, organizadas por família de cor.

Foi nessa vitrine que eu fiquei mais tempo. São as fichas de amostra do ateliê do Saint Laurent: amarelos numa página, rosas na outra, e depois neutros, laranjas, vermelhos, verdes, azuis, roxos. Cada quadradinho é um tecido diferente que pertence à mesma família de cor.

Ou seja: uma cartela feita à mão. Ele precisava decidir rápido, e com precisão, qual amarelo entrava em qual peça, e organizou essa decisão por famílias de cor. Isso é ferramenta de trabalho. E você consegue montar a sua versão neste fim de semana, com o que já está no armário:

A SUA PÁGINA DE AMOSTRAS, EM 3 PASSOS

1. Separe uma família por vez. Tira do armário todas as suas peças de vermelho, por exemplo, do vinho ao coral. Sem julgar nenhuma ainda.

2. Prove na luz do dia. Perto da janela, sem maquiagem, uma por uma encostada no rosto.

3. Anote quem ganha. Em qual delas o seu rosto aparece na frente da roupa? Essa é a sua cor dessa família. As outras seguem úteis longe do rosto: na parte de baixo, na bolsa, no sapato.

Faz isso com duas famílias e você já compra com mais critério do que qualquer vitrine te oferece.

6 · A MARCA QUE OS DOIS DEIXARAM

Dois cartões de boas-festas de Yves Saint Laurent emoldurados, com a palavra LOVE em recortes de papel colorido: o de 1983 sobre fundo preto e o de 1989 em faixas de rosa, vermelho e laranja com um coração Débora de costas na galeria, com lenço de crochê na cabeça, observando quatro guaches recortados de Yves Saint Laurent pendurados na parede branca

Os cartões de LOVE, um por ano. Recortados e colados à mão.

Tem uma parede da exposição só com os cartões que Saint Laurent mandava todo começo de ano pros amigos e clientes, com a palavra LOVE recortada e colada à mão. Tem o de 1983, tem o de 1989. Você olha um do lado do outro e reconhece a mão dele na hora, sem precisar ler a assinatura.

É isso que faz uma marca durar. Os dois passaram a vida inteira repetindo o que era deles, inclusive quando ouviram que estavam errados. Matisse foi chamado de selvagem pelas cores que usava. Saint Laurent ouviu que tinha ido longe demais quando vestiu mulheres de smoking, em 1966.

A sua imagem fica reconhecível pela repetição do que é seu. Quem troca de identidade a cada temporada não fica na memória de ninguém.

Eu saí do museu pensando na conversa que a gente vem tendo aqui nas últimas semanas. Comparação estraga viagem, estraga guarda-roupa e estraga imagem. O que sustenta uma imagem no tempo é conhecer as suas cores e as suas formas, e ter coragem de repetir.

COR E FORMA, LIDAS NO SEU ROSTO

Uma tarde inteira vendo dois gênios trabalharem cor e forma me deixou com uma vontade só: colocar essa leitura na sua mão, todos os dias, sem depender da minha agenda.

É pra isso que existe a MUSA, a minha inteligência artificial de imagem no WhatsApp. Ela abre pra novas usuárias na reta final desta viagem.

Responde este e-mail com a palavra MUSA
que eu te aviso primeiro, antes de abrir pra todo mundo.

Prefiro mandar MUSA no WhatsApp →

ME CONTA:

O que você quer saber sobre a MUSA? Pode ser qualquer coisa: como ela funciona, o que ela responde, se serve pro seu caso. Manda a sua pergunta respondendo este e-mail. Eu estou juntando todas as dúvidas que chegaram esta semana e vou responder uma a uma antes da abertura.

Beijos de Mallorca, e até terça 👀

Débora

P.S.: se você tem viagem pra Europa marcada até setembro, anota: a exposição fica até 28 de setembro no Museu Matisse, em Cimiez, na parte alta de Nice. Vale a subida, e o jardim de oliveiras na frente já vale a foto.

VISATGÉ

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