VISATGÉ
MENOS BORING MAIS BOSSA
Terça · sua consultoria de imagem semanal
Saí do cinema com as duas coisas na ponta da língua.
Oi, Brasil!
Fui ver A Odisseia, o filme do Christopher Nolan, e saí de lá com um elogio e uma crítica sobre a caracterização das mulheres. Publiquei os dois ontem à noite.
O que eu não esperava era o que veio depois. Uma leitora chegou nos comentários, discordou de mim com um argumento muito bom, e a minha resposta pra ela virou esta edição.
Porque no fundo a gente não estava discutindo cinema. Estava discutindo uma escolha que você faz toda semana, na frente do espelho, sem perceber.
NA EDIÇÃO DE HOJE:
- O elogio: as paletas de Penélope, Helena e Calipso
- A crítica: o rosto que ficou de fora da conta
- Por que a Zendaya foi a mais desfavorecida
- O comentário que discordou de mim (e acertou uma parte)
- O 8 ou 80 que eu vejo fora do cinema
- 3 perguntas pro seu dia difícil não virar apagamento
1 · O ELOGIO: O FILME ACERTOU NAS CORES
Dentro da psicologia das cores, a paleta da maior parte das personagens femininas foi muito bem escolhida. E isso não é detalhe de figurino: a cor conta a história antes da primeira fala. Olha três delas.
Penélope (Anne Hathaway) é lealdade, intelectualidade, profundidade, presença silenciosa. A paleta dela vive nos azuis: marinho, acinzentado, slate. É o perfil frio, o que não precisa gritar pra ser visto.
Helena de Troia (Lupita Nyong'o) é poder e sedução, e a paleta é toda em dourado, caramelo, âmbar. Repara no detalhe técnico: a coloração natural da Lupita é fria e essas cores são quentes. O que salva e potencializa é o acabamento brilhoso, presente o tempo todo. Resultado: uma mulher de alta intensidade, que chama atenção antes mesmo de você entrar na sala de cinema.
Calipso (Charlize Theron) é mistério e natureza: oliva, verde musgo, terracota escuro. Perfil quente terroso, com cores que têm raiz, têm profundidade, têm história.
Três mulheres, três temperaturas, três mensagens. Nesse ponto, o filme foi impecável.
2 · A CRÍTICA: O ROSTO FICOU DE FORA
Amei a escolha das atrizes. Mas saí do cinema com uma pulga atrás da orelha.
Independente da época retratada, eu senti falta da maquiagem reforçando o que cada rosto já tem de poderoso. Justamente pra destacar as características internas de cada uma dessas mulheres fortes da história.
Não estou falando de deixar ninguém "produzida". Estou falando de usar o que já estava ali:
1. O alto contraste da Anne podia ser reforçado na make, pra potencializar a força da Penélope.
2. O olhar felino da Charlize, pra reforçar o mistério e a atratividade da personagem.
3. O formato de rosto cheio de ângulos da Lupita, e o viço da pele dela, pra mostrar o brilho de Helena de Troia.
Nada disso exigia inventar um rosto novo. Exigia olhar pro rosto que já estava em cena.
3 · A DEUSA QUE PERDEU A FORÇA
A Zendaya foi a mais desfavorecida pela paleta de cores. E sem nenhum destaque na make, as sobrancelhas grossas e cerradas dela e as angulações do formato do rosto dela perderam a força.
E aí acontece o que mais me incomodou: a deusa Atena, tão poderosa, perdeu a força junto.
4 · A LEITORA QUE DISCORDOU
Foi aqui que a conversa ficou boa. Chegou este comentário:
"Por mais que Athena seja forte, ali ela representava dor. Athena era dor de ter sido usada na ruína de uma cidade inteira. E mesmo as outras mulheres na história, elas não estavam felizes, e a falta de maquiagem também representa isso. A história delas também estava sendo contada pela falta da maquiagem."
Uma leitora, nos comentários do post.
Ela tem razão numa parte importante: ausência também é linguagem. Tirar comunica tanto quanto colocar. E a Zendaya retratou esse sofrimento muito bem na atuação dela.
Eu entendo 100% a intenção. Só que é aí que começa a minha resposta.
5 · DOR E FORÇA CABEM NO MESMO ROSTO
Atena estava sofrendo. Mas ela sempre foi a deusa mais forte. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é exatamente isso que a imagem sabe fazer melhor do que qualquer outra linguagem: revelar duas mensagens de uma vez, cada uma com a sua estratégia.
Não era pra maquiagem ser protagonista. Não era pra ela estar na "melhor" versão dela. Concordo com as duas coisas. Mas dava pra ser diferente sem anular ela.
Ninguém é uma coisa só
Nem a deusa que sofre, nem a mulher exausta numa terça-feira. A imagem não precisa escolher entre mostrar a força e admitir o cansaço. Ela dá conta das duas, se for construída com intenção.
6 · O 8 OU 80 QUE EU VEJO FORA DO CINEMA
Eu vi naquela caracterização o mesmo 8 ou 80 que eu vejo na vida real:
8 · "Ou eu saio impecável, ou eu não saio." Produção completa ou nada, como se se arrumar fosse um evento e não um idioma.
80 · "Hoje eu não estou bem, então tanto faz." Cara lavada, cabelo preso na pressa, a roupa que não diz nada. E a semana inteira passa contando essa história.
O problema não é o dia difícil. O dia difícil vai existir. O problema é achar que ele obriga você a se apagar, quando ele só está pedindo pra falar mais baixo.
3 PERGUNTAS PRO DIA DIFÍCIL
São as que eu faço quando não estou legal e ainda assim preciso sair de casa:
1. Eu estou tirando ou estou sumindo? Tirar é escolher o que fica. Sumir é entregar a decisão pro cansaço.
2. Qual é a única coisa que eu mantenho hoje? Uma cor da minha cartela perto do rosto costuma resolver mais do que meia hora de maquiagem.
3. Eu me reconheço no espelho? Se a resposta for não, você não simplificou: você se anulou. E dá pra voltar com um detalhe só.
Nenhuma das três custa dinheiro. Todas custam dois minutos e uma decisão.
O DEBATE CONTINUA ABERTO
O post está lá, com as paletas de cada personagem slide a slide, e os comentários seguem quentes.
Vai ver com os seus olhos e me diz de que lado você ficou.
Comentário discordando é bem-vindo. Foi um que gerou esta edição.
ME CONTA:
Qual é o seu 8 ou 80? Você é do time que só sai impecável, ou do time que some no dia ruim? Responde esse e-mail com uma frase. Eu leio tudo, e essas respostas viram assunto aqui.
Beijos, e até terça 👀
Débora
P.S.: se você leu a estética da Penélope, da Helena e da Calipso e ficou com a pergunta óbvia na cabeça, a resposta é sim: você também tem a sua. Descobrir qual é o seu perfil estético de verdade é a primeira coisa que você faz no Guia de Looks Visatgé, por R$97.
VISATGÉ
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