VISATGÉ

MENOS BORING MAIS BOSSA

De Palma de Maiorca · sua consultoria de imagem semanal

Oi, Brasil!

Eu fui visitar a catedral daqui de Palma achando que ia ver uma igreja gótica e pronto. Passei quase duas horas lá dentro.

Porque uns cinco minutos depois de entrar eu comecei a olhar em volta e pensar: tem alguma coisa aqui que não é gótica. E quando eu descobri o que era, virou a edição de hoje.

Tem tudo a ver com o seu armário, prometo.

NA EDIÇÃO DE HOJE:

  • A catedral que começou em 1229 e só fechou em 1601
  • O gótico que você reconhece de olhos fechados
  • O detalhe que me fez desconfiar, e o nome que apareceu: Gaudí
  • Uma capela de 2006 dentro de uma igreja de 1229
  • A mulher que me parou no meio da nave
  • O meu look do dia, e o que ele tem de Maiorca

1 · UMA PROMESSA FEITA NO MEIO DE UMA TEMPESTADE

Débora e um acompanhante posando na praça em frente à fachada principal da Catedral de Palma, uma parede altíssima de pedra dourada com rosácea, arco de entrada e torres pontiagudas

A gente ali embaixo, só pra você ter noção do tamanho da coisa.

Ela se chama La Seu. E a história de como ela nasceu é meio cinema.

Em 1229 o rei Jaime I de Aragão estava vindo com a frota dele pra tomar a ilha dos mouros e pegou uma tempestade daquelas no meio do mar. Diz a história que ele prometeu que, se saísse vivo dali, construiria um templo enorme pra Virgem. Saiu vivo, conquistou a ilha e cumpriu.

O terreno escolhido foi o da mesquita principal de Madina Mayurqa, que era o nome de Palma na época islâmica. A mesquita foi sendo derrubada conforme a catedral subia. Olha o tamanho da obra: começou em 1229, foi consagrada em 1346 com o rei presente, e só foi considerada pronta em 1601.

Quase quatro séculos, gente. Guarda esse número, porque ele explica tudo que vem depois.

2 · O GÓTICO QUE VOCÊ RECONHECE DE OLHOS FECHADOS

Fachada principal da Catedral de Palma vista de baixo para cima: a grande rosácea de pedra rendada no centro, o arco da portada com estátua da Virgem e duas torres pontiagudas recortando o céu Lateral da catedral vista de baixo, com a fileira de pináculos e agulhas de pedra apontando para um céu azul intenso e o arco ogival de uma das portas à direita

Repara que tudo aponta pra cima. Nada aqui é decoração solta.

O estilo dela é o gótico mediterrâneo, também chamado de levantino, que é o gótico como ele foi feito por aqui, de frente pro mar. E ele tem três marcas que você reconhece na hora, mesmo sem nunca ter estudado isso:

O arco ogival. Aquele arco de ponta aguda, em vez de redondo. Ele distribui o peso melhor e leva o olho de quem entra direto pra cima.

Os vitrais e as rosáceas. As janelas coloridas que tomaram o lugar das paredes grossas de pedra e encheram o lugar de luz e de cor.

As torres pontiagudas. As agulhas e os pináculos apontando pro céu, simbolizando a ligação entre a Terra e o divino.

Interior da catedral visto de baixo: colunas altíssimas subindo até as abóbadas de pedra escura, vitrais estreitos e coloridos ao longo das paredes e a grande rosácea multicolorida à direita

Essa é a foto que eu tirei no primeiro minuto lá dentro, de cabeça pra trás.

Os números daqui são de assustar. A nave central tem 44 metros de altura, uma das mais altas do gótico europeu inteiro. A rosácea grande tem quase 13 metros de diâmetro e é a maior rosácea gótica do mundo, apelidada de Olho do Gótico. E são 87 janelas com 7 rosáceas espalhadas, por isso chamam ela de catedral da luz.

E olha só o que isso tem de visagismo, que é a base de todos os meus serviços. Linha vertical sobe o olho de quem vê. Não importa se é uma coluna de pedra de 44 metros ou o decote em V da sua camisa. O gótico inteiro é construído em cima dessa regra, e ela funciona igualzinho em você: a fileira de botões aberta, o colar comprido, a calça reta, a fenda da saia. Tudo isso puxa o olhar pra cima.

E os vitrais fazem o outro trabalho, que é o da cor. Repara que eles substituíram a parede. A cor ali decide pra onde você olha, e é exatamente esse o trabalho que a cor perto do seu rosto faz todo dia de manhã.

3 · O DETALHE QUE ME FEZ DESCONFIAR

Foi aí que eu comecei a estranhar. Tinha coisa ali dentro que não fechava com o gótico: formas orgânicas no meio de tanta linha reta, cores que fugiam da cartela da pedra, e uma identidade muito forte de um artista moderno que eu sabia que eu conhecia de algum lugar.

Ah, Débora, mas o que exatamente chamou a sua atenção? Aquilo pendurado em cima do altar. Olha:

Interior da catedral: a grande rosácea colorida no alto e, logo abaixo, o baldaquino de Gaudí suspenso sobre o altar, uma estrutura irregular em forma de coroa com lâmpadas penduradas e um crucifixo no topo

Em cima, o Olho do Gótico, de 1370. Pendurado embaixo, uma coisa de 1912.

Aquela coroa torta cheia de lâmpadas não tem nada de medieval. Quando eu fui atrás, veio o nome que eu já estava desconfiando: Antoni Gaudí.

Em 1902 o bispo de Maiorca chamou o Gaudí, que já era o arquiteto da Sagrada Família em Barcelona, pra adaptar o interior da catedral às novas necessidades da missa. Ele trabalhou aqui de 1904 a 1914.

E o que ele fez foi principalmente tirar coisa do caminho. O coro ficava plantado no meio da nave, cortando a igreja em duas: ele tirou dali e devolveu a vista inteira, da porta até o altar. Tirou também o retábulo gótico que tampava o fundo. Aí criou o baldaquino em cima do altar, abriu vitrais onde antes só tinha pedra e pendurou a iluminação. Em 1914 ele brigou feio com o construtor, foi embora e deixou a obra pela metade, do jeito que está até hoje.

Duas pilhas de livros na loja da catedral, com capas mostrando o baldaquino de Gaudí, tituladas Gaudí et la Cathédrale de Majorque e Gaudí in der Kathedrale von Mallorca, com etiqueta de 12 euros Débora de pé no meio da nave da catedral, de camisa de linho branca e saia estampada, com o baldaquino de Gaudí e o altar ao fundo

A loja da catedral confirmou minha suspeita por 12 euros. E eu, olhando aquilo de boca aberta.

Presta atenção no movimento dele, porque é o mesmo que eu faço numa consultoria. O Gaudí quase não acrescentou. Ele tirou o que estava no meio. A catedral já tinha tudo, o problema era o que estava atravessado na frente.

4 · E TEM UMA CAPELA DE 2006 LÁ DENTRO

Capela do Santíssimo da Catedral de Palma: as paredes góticas inteiramente cobertas por um relevo de cerâmica cor de barro rachado, com peixes, pães, caveiras e folhas de palmeira modelados, e cinco vitrais altos e estreitos em tons de azul e branco

A Capela do Santíssimo. Parece fundo do mar e parece barro rachado ao mesmo tempo.

Quando eu virei nessa capela eu levei um susto. Isso aqui é obra do Miquel Barceló, que é maiorquino, nascido na ilha, e é um dos artistas contemporâneos mais conhecidos da Espanha.

Entre 2001 e 2006 ele cobriu as paredes da capela com quase 300 metros quadrados de cerâmica colorida e desenhou cinco vitrais de 12 metros de altura. O tema é a multiplicação dos pães e dos peixes, e é por isso que a parede inteira parece um cardume saindo do barro.

Então soma tudo o que está dentro do mesmo prédio: uma estrutura gótica do século 13, uma reforma moderna do começo do século 20 e uma capela contemporânea de 2006.

Oito séculos e três cabeças completamente diferentes na mesma construção. E ela não ficou confusa. Ficou única.

Foi essa a ficha que caiu comigo lá dentro. A gente também pode misturar mensagens e referências diferentes pra construir a NOSSA identidade. É assim que a gente se destaca, e é assim que a gente fica autêntica.

E eu não precisei sair da catedral pra ver alguém fazendo exatamente isso.

5 · A MULHER QUE ME PAROU NO MEIO DA NAVE

Mulher de costas caminhando dentro da catedral: camisa de linho azul clara solta, calça larga estampada de cetim em tons de ferrugem, ocre e turquesa, bolsa grande de palha em crochê no ombro e sandália rasteira

Eu estava olhando pro teto e parei de olhar pro teto.

Ela passou na minha frente e eu virei a cabeça. No meio de uma catedral lotada de turista, foi ela que me fez parar.

Olha o que essa mulher fez:

Uma camisa de linho azul clarinha, que é tecido opaco, sem brilho nenhum, o mais casual que existe.

Cruzada com uma calça estampada acetinada, que é tecido lustroso e festivo, numa modelagem diferenciada, bem larga, que se move quando ela anda.

E amarrou tudo com uma bolsa de palha.

Ela cruzou o casual com o fashionismo. O básico com o glamour. E foi por isso que ela se destacou naquela multidão.

Presta atenção nesse ponto, que é o que mais me dá vontade de gritar aqui: todo mundo acha que o que faz a diferença é a beleza. Gente, eu nem cheguei a ver o rosto dessa mulher. Eu vi o estilo dela de costas, e foi o suficiente pra me fazer parar.

E a boa notícia é que estilo se constrói. Você consegue fazer o cruzamento dela ainda esta semana, com o que já está no seu armário:

O CRUZAMENTO, EM 3 PASSOS

1. Escolha um par pra cruzar. Opaco com lustroso (o linho com o cetim). Casual com festivo (a camisa de todo dia com a peça de festa). Liso com trabalhado (a peça sem graça com a modelagem diferentona).

2. Um cruzamento por look, e só. Deixa o resto quietinho. Dois cruzamentos no mesmo corpo já vira fantasia.

3. Amarre com um material honesto. Palha, madeira, couro cru, corda. É esse detalhe sem brilho que faz o cetim parecer escolha sua, e não excesso.

6 · O MEU LOOK DO DIA (E A COINCIDÊNCIA)

Débora numa ruela estreita de pedra do centro de Palma, de camisa de linho branca amarrada na cintura, saia curta estampada em tons de terracota e ocre, bolsa pequena de palha e sandália rasteira, com a torre da catedral aparecendo no fim da rua

Olha a catedral espiando lá no fim da rua.

Coincidentemente, eu tinha feito a mesma coisa naquela manhã. Camisa de linho branca, a peça mais básica do mundo, cruzada com uma saia estampada.

E a estampa não foi por acaso. Ela puxa as cores da própria cidade, aquele terracota da telha e o ocre da pedra, com uma energia bem espanhola. Tudo pensado pra eu estar confortável nesse calor, mas também entrando na estética de Maiorca.

Ainda me sentindo eu, tá? Esse é o pulo do gato. Entrar na estética de um lugar sem sair de você.

Porque é isso que a catedral está fazendo há oito séculos. Gótico, Gaudí e Barceló, cada um entrando com a linguagem do seu tempo, e ela continua sendo ela. O que te dá esse critério pra misturar sem se perder é o visagismo, que é a base de todos os meus serviços: saber as suas cores, as suas linhas e o que o seu rosto pede.

A MUSA ABRE DIA 1º DE SETEMBRO

Uma catedral inteira pra me lembrar de uma coisa só: misturar bem depende de conhecer o que é seu. E eu queria isso na sua mão todo dia, sem depender da minha agenda.

É pra isso que existe a MUSA, a minha inteligência artificial de imagem no WhatsApp. Ela abre pra novas usuárias na segunda-feira, 1º de setembro.

Responde este e-mail com a palavra MUSA
que eu te aviso primeiro, antes de abrir pra todo mundo.

Prefiro mandar MUSA no WhatsApp →

ME CONTA:

Qual é o cruzamento que é a SUA cara? Aquela mistura que você faz e que ninguém mais faz igual. Responde este e-mail e me conta, que eu leio uma por uma. E se você tem alguma dúvida sobre a MUSA antes da abertura, manda junto.

Beijos de Lisboa, e até terça 👀

Débora

P.S.: se Maiorca entrar no seu roteiro algum dia, anota duas coisas sobre La Seu. Vá de manhã, que é quando a luz atravessa a rosácea grande. E não saia sem entrar na Capela do Santíssimo, que fica meio escondida à esquerda do altar e é onde está a obra do Barceló.

VISATGÉ

Consultoria de imagem que começa em quem você é.
Você recebe porque assinou a newsletter da Débora.
{{unsubscribe_link}} · @deboravisatge